De onde vem o medo?

Há alguns anos tenho me perguntado de onde vem isso, principalmente porque, como professora, meu maior objetivo é ajudar as pessoas a acabar com esse impedimento. De onde vem essa trava? E tenho observado que é por causa do medo. Medo de falhar. Medo de esquecer uma preposição, de conjugar um verbo errado, mas principalmente de fazer papel de tonto na frente de um estrangeiro.

Mas por que esse medo? A gente já não passou vergonha demais nessa vida pra saber que ninguém se importa muito? E que dali cinco minutos as pessoas vão estar rindo de outra coisa?

Um outro ponto importante é que se você acha que está falando inglês errado, já sabe mais do que muitas pessoas que nunca se deram o trabalho de aprender outros idiomas; significa que você tem mais coragem, mais destreza mental e mais acesso a cultura de uma maneira geral do que tinha antes de começar a estudar. Score!

Se isso ainda não é suficiente pra te fazer repensar o medo, veja esses dados de uma pesquisa de junho de 2017 feita pelo site Babbel:

  • 1.5 bilhão de pessoas no mundo falam inglês
  • 360 milhões são falantes nativos

Isso significa que as chances de você conversar em inglês com alguém que sabe tanto quanto você ou até menos são muito maiores do que de papear com um nativo. E isso quer dizer que, por mais que a pessoa saiba mais do que você, ela já passou pelas mesmas dificuldades que você tem, então vai ser muito mais compreensiva e paciente.

O medo é a única coisa que está impedindo você de tentar, porque conhecimento você provavelmente já tem. Defendo com unhas e dentes a ideia de que, mais importante do que decorar tabela de verbos e não precisar usar dicionário, é se sentir livre das próprias amarras para poder se expressar como puder, até o dia em que você puder se expressar como quiser.

Falar inglês vai mudar a sua vida

Eu tive o enorme privilégio de aprender inglês desde os quatro anos. De ser alfabetizada em inglês e português ao mesmo tempo, de descobrir minha paixão por idiomas desde muito cedo e poder fazer disso grande parte da minha identidade.

Mas eu também tive o interesse de continuar estudando por conta própria quando minha mãe não podia mais pagar; de começar minha carreira aos dezoito anos em uma escola de idiomas de bairro, aprendendo tanto quanto ensinando; a curiosidade de ver o mundo com outros olhos.

E isso mudou minha vida.

Falar inglês me trouxe mais alegrias do que eu jamais poderia contar, e nas coisas às quais muita gente não dá valor. Fazer amigos em todos os cantos do mundo tem sido a mais recompensadora delas.

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Hoje eu me considero uma cidadã do mundo sem nunca ter morado no exterior. Tenho amigos canadenses, americanos, ingleses, nigerianos, húngaros, cingapurianos… Trago comigo todas as histórias que me contaram, os costumes que me ensinaram, assim como eles também levam consigo um pedacinho do Brasil que eu lhes dei.

Isso também me trouxe uma visão de mundo muito mais ampla, curiosa e tolerante, com maior aceitação de outras culturas e em uma posição de aprender mais do que ensinar. Me mostrou o quanto eu ainda quero conhecer. Quanto mais idiomas eu falo, mais mundos eu conheço.

Há anos tenho a honra de ajudar sabe-se lá quantas pessoas a se comunicar em um outro idioma, seja em viagens, no trabalho ou por realização pessoal. Ajudo a mudar vidas. Aprendo a cada dia a ver o mundo com os olhos de quem ainda o está descobrindo.

Tenho acesso a informações, artigos, livros e filmes que demoram a ser traduzidos para o português. Isso me dá fontes inesgotáveis de sabedoria antes das outras pessoas – e me sinto na obrigação de compartilhá-las.

Em viagens para países de língua inglesa, não corro o risco de comprar algo que eu não queira, nem pedir algo errado em um restaurante, muito menos ficar presa na Imigração. Tampouco me perder no aeroporto. Recebo atendimento muito mais atencioso, cordial e paciente.

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Também consigo ajudar outros brasileiros que não têm tanta segurança para falar. Viajo de maneira independente, com muito mais segurança e menos medo de me perder, mesmo que esteja ali pela primeira vez. Tenho menos problemas durante a viagem e quando os tenho, resolvo rapidamente.

Quando cogitei ser comissária de voo, o idioma era o maior problema para os estudantes do curso; eu já estava um passo à frente. Se eu quisesse seguir uma carreira corporativa, teria cargos e salários mais altos.

Quando conheci meu ídolo, um músico, consegui conversar com ele por alguns poucos minutos sem gaguejar, sentir vergonha ou ser indelicada sem querer por não entender as diferenças entre nossos costumes.

Estudos recentes mostram que, por eu falar mais de um idioma, minhas chances de ter doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson serão adiadas em cinco anos ou mais. Meu cérebro também tem aumentada a sua capacidade de resolver problemas e trocar de atividades mais rapidamente, assim como a concentração e a seleção de informações relevantes.

Hoje, falar inglês fluentemente é sem dúvida grande parte de quem eu sou. Minha essência foi moldada também pelas experiências que tive por saber outro idioma, por ter contato com outras culturas, outros mundos completamente diferentes do meu, ainda que sem sair de casa.

Como vai mudar a sua?

Como pensar em inglês?

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Para a maioria das pessoas, começar a pensar em inglês significa parar de traduzir tudo de um idioma para o outro, e consequentemente parar de perder tanto tempo tentando construir frases. E é provavelmente o maior objetivo de quem estuda inglês, o bilhete da loteria, o pote de ouro no fim do arco-íris. É quando você sabe que não precisa mais estudar porque já é fluente.

SÓ QUE NÃO.

O nosso cérebro está A TODO MOMENTO tentando economizar energia; se livrar de informações e espaço que não usa. Quando aprendemos vocabulário e não usamos, o cérebro não se dá o trabalho de reservar espaço para aquilo. Também tem o fato de que, quanto mais cansados estamos, mais difícil é pensar, em qualquer idioma que seja.

Por isso é tão difícil sair construindo frases aleatórias em outro idioma: porque ainda não temos vocabulário suficiente. Não insistimos em praticar o suficiente para que o cérebro entenda que aquilo merece ser guardado em um espaço especial. É como o speed dial dos telefones antigos.

Portanto, quanto mais você praticar as coisas que quer falar,  mais rápido conseguirá pensar e menos terá que traduzir.

Mas repito: as coisas que quer falar.

Por isso eu sempre insisto na necessidade de entender seus objetivos de maneira muito clara, escrevendo-os para ir atrás deles com muito discernimento. Quanto mais perdermos tempo com coisas isoladas, difíceis demais para o nosso nível, e coisas que não conseguiremos incorporar aos nossos estudos, mais difícil será pensar no novo idioma.

Então, o que é pensar em um novo idioma?

É ter praticado certo vocabulário tantas vezes, mas tantas vezes, que você não precisa mais levar tanto tempo assim para manifestar as suas ideias. Pensamos automaticamente em português porque é o que fazemos há muitos anos, então parece que é automático. Mas compor um raciocínio é uma tarefa árdua em qualquer idioma.

E como fazer esse processo ficar menos lento?

1) ESCOLHA COISAS QUE ESTEJAM ALINHADAS COM OS SEUS OBJETIVOS

Em primeiro lugar, que tenham a ver com os seus objetivos no idioma. Se é viajar (como o meu caso aprendendo francês), comece aprendendo frases e expressões que precisará para se comunicar nessas circunstâncias. Repita os estudos com a maior frequência possível, fazendo exercícios, copiando e criando suas próprias frases com variações.

Por exemplo: se você também vai viajar, é importante aprender que I’d like a/an/some no restaurante quer dizer “Eu quero um/uma…”. Então crie e ensaie suas próprias variações de acordo com o que você pediria e gosta de comer.

I’d like some fries

I’d like a glass of red wine

I’d like a slice of chocolate cheesecake

2) OUÇA O MÁXIMO QUE PUDER

Escolha temas que você goste, como seriados que lhe interessam e canais do YouTube e videos do TED que tenham a ver com as coisas que você gosta em português. Estudar o que se gosta aumenta exponencialmente as chances de se dedicar e fixar o conteúdo.

Ouvir é uma das melhores maneiras de adquirir uma nova língua, acostumando-se aos sons e junções das palavras, além de apresentar novas expressões que podem (e devem) ser imitadas sempre que possível, até você conseguir incorporar aos seus próprios pensamentos. Logo você vai começar a imitar os personagens e vai até sonhar em inglês de tanto tempo que passou ouvindo.

Mas não é mágica. É treino.

Mas ouvir o quê? Neste post há várias ideias de sites e plataformas para escolher o que você quiser.

Com legendas ou sem legendas? Neste video eu desmistifico de uma vez por todas a demonização que muita gente faz das legendas em português. No começo, ouvir sem legendas só vai dar mais medo e frustração do que realmente a chance de aprender alguma coisa.

3) FORCE A SI MESMO A TRADUZIR O SEU DIA A DIA

Comece com as coisas mais simples, que parecem besteira (Agora eu vou tomar banho, Preciso ligar para o meu médico, Oi, mãe! Tudo bem?), mas que vão sinalizar ao seu cérebro que há uma outra maneira de pensar, um outro idioma ao qual ele precisa se acostumar. Use o vocabulário que você já sabe e vá incorporando palavras que não sabe aos poucos.

No começo você vai se cansar e pode até ter um pouco de dor de cabeça – e é normal, por causa da falta de costume. Mas vá fazendo um pouco por dia e você verá como vai ficar mais fácil.

Por fim, NÃO DESISTA. Ninguém nasce com o dom de pensar em outro idioma; todo mundo tem que ralar pra isso. Não é milagre depois de x anos de estudo; é resultado de trabalho consciente. Então, por que não começar hoje para que isso aconteça mais rápido do que você imagina?

Ninguém vai me entender!

O medo de não ser compreendido ao falar inglês ou escrever um email ou uma mensagem é quase que universal. Praticamente todo estudante de um outro idioma tem pavor de esquecer um auxiliar no meio da frase, não lembrar a palavra certa ou pronunciar de um jeito estranho.

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É óbvio que é muito importante ser o mais preciso possível, especialmente quando se trata de uma apresentação importante, um evento corporativo ou a redação de um contrato. Para isso, preparar-se com antecedência não só é importante; é fundamental.

Aprenda frases prontas no começo

Se seu medo vem da sensação de que ainda não está pronto para pensar em inglês e construir suas próprias ideias porque falta vocabulário, aprender frases prontas no começo como por exemplo para falar de si mesmo, pedir refeições ou até informações ajuda muito a ter mais segurança porque você não vai duvidar de si mesmo.

Praticar essas frases o máximo que puder garante mais confiança e disposição para falar desde o começo do seu aprendizado.

O app English Conversation Practice tem muitos diálogos com frases prontas e exercícios para você se colocar no lugar de um dos interlocutores.

Crie scripts 

Outro dia deixei no feed do meu Instagram uma dica de ouro: prepare scripts do que você vai precisar ou quer falar. Vai viajar? Prepare conversas que você pode ter na imigração, no aeroporto, no saguão do hotel, nos restaurantes, nas lojas, no Uber… Treine no gravador do seu celular até sentir segurança no que está pronunciando.

Vai atender telefonemas de estrangeiros? Prepare scripts sobre como anotar recados, transferir ligações, reagendar reuniões, etc. Pratique o máximo que puder; quando as situações acontecerem, você já estará preparado para a maioria delas e não precisará confiar na sua memória – que possivelmente vai falhar se você não usa aquelas palavras/frases há muito tempo.

Fale mais devagar

Muitos alunos ouvem filmes, músicas e videos e têm a falsa impressão de que para falar inglês bem é necessário falar rápido. A vontade de imitar os nativos faz com que nos atrapalhemos, porque o que acontece muitas vezes com quem ainda não tem muita prática é que acaba “comendo” alguns sons ou até palavras, e isso pode prejudicar o entendimento do interlocutor.

Policiar o nervosismo e falar mais devagar (mas com ritmo natural) é uma ótima maneira de começar a criar mais confiança, porque você tem mais certeza de que será entendido. O mais importante é ser compreendido, não falar igual um nativo. 

Para as três técnicas, o uso do gravador do seu celular é de ajuda inestimável. Treinar a pronúncia das palavras, a intonação de perguntas e a cadência das frases é indispensável para falar bem.

Portanto, criar coragem de falar não é algo que acontece da noite para o dia. Mas com essas três práticas, o treinamento direcionado vai ajudar a ter confiança muito mais rápido.